
QUELHA DA LAPA: UMA PASSAGEM MÍSTICA!
Não, não remonta a 1917. Esse é o santuário de Fátima.
Não, não remonta a 1858. Esse é o santuário de Nossa Senhora de Lourdes, no sul de França.
Não, não remonta a 1531. Esse é o santuário de Nossa Senhora da Guadalupe, no México.
Sim, remonta a 1498. Trata-se do santuário de Nossa Senhora da Lapa, localizado no concelho de Sernancelhe, diocese de Lamego.
Falo de um santuário que, pese embora com a vetusta idade de 526 anos, continua pujante na alma de um povo que o sente em cada dia que passa, que o acarinha neste agora da vida que acontece.
Nascido, como tantos outros, da fé das mulheres e dos homens, o santuário da Lapa foi durante séculos o grande santuário de Portugal e mesmo da Península, onde ombreava com o de Santiago de Compostela.
E se através dos mares nunca dantes navegados, os portugueses do século XV e XVI deram novos mundos ao mundo, ‘descobrindo’ novas terras, por aqui, por esta Beira, por estas, hoje, Terras do Demo, nesses longínquos anos, no ano em que Vasco da Gama aportou em Calecute, a Joana, a pastora Joana, rezam as crónicas que vêm de então, descobriu e deu à fé e ao povo esta Senhora, batizada, da Lapa.
E o povo agarrou-a. Venerou-a. E mesmo ali, tratou de dar à Senhora e à Lapa, que a abrigou desde os tempos de Almançor, reza a lenda, uma casa digna, a Capela de Nossa Senhora da Lapa. Capela que, quer ontem, tal qual hoje, os peregrinos demandam para cumprirem as suas promessas, para efetuarem as suas preces e para ‘certificarem’ a sua conduta não pecadora ao conseguirem passar na quelha, bem estreita, entre duas rochas que estão sob a lapa granítica a que a capela deu guarida.
Era essa a narrativa do povo, era eu miúdo. A condição para se passar, ou não, na quelha, não era a dimensão do nosso corpo, eram, sim, os pecados da alma. E os ‘pecadores’, na voz popular, esses, mesmo magros, não passavam! Porém, até hoje, que se saiba, só lá não conseguiram passar mesmo os que não quiseram arriscar a passagem, sabe-se lá se por questões de consciência, pois, com certeza, teriam passado e teriam recebido a absolvição divina que a benevolente Senhora, a da Lapa, tem sempre para dar a todos! A dificuldade está, afinal, tantas vezes, na nossa predisposição para a contrição!
Mas, narrativas e imaginários à parte, o Santuário de Nossa Senhora da Lapa continua a ser, fruto do trabalho dedicado e profícuo de tantas e tantos crentes e amantes da cultura da sua terra, um dos principais locais de culto de Portugal.
Pois bem, se não conhece o santuário, meta os pés a caminho e ala que se faz tarde! Ah, e lá chegado não se esqueça, vá à quelha certificar a sua condição de não pecadora(a)!
A festa anual é no dia 15 de agosto!