
Esta breve crónica vem a propósito de uma pesquisa que estou a desenvolver e que levará à escrita e publicação, durante este ano, de um romance histórico biográfico a editar por Letras e Conteúdos. A inspiração da narrativa centra-se numa personalidade que não sendo natural de Ílhavo lá passou a maior parte da sua vida. E foi nessa investigação que nos confrontámo com o facto de, nos anos 20, mais concretamente, em 1926, existirem no concelho três jornais com edição regular, o que reputo de muito relevante e diz bem do dinamismo social, cultural e político de Ílhavo, nessa época em que se passam algumas das cenas de tal narrativa.
Falamos, pois, de O Ilhavense, dirigido por José Pereira Teles, Beira-Mar, com dois diretores, Cesário da Cruz e Guilhermino Ramalheira, e O Nauta, cujo diretor era Procópio D’Oliveira. Cada um deles não o escondia, bastará ler as respetivas edições, tinha as suas idiossincrasias e os seus alinhamentos políticos a nível local e nacional.
O primeiro, que se intitulava de “Semanário Independente”, era próximo do poder instalado na Câmara Municipal que, há exceção de três meses em 1926, foi sempre presidida por Diniz Gomes, entre 1919 e 1941. O segundo, que se dizia “Semanário Noticioso de Interesses Locais”, era de pendor republicano e tinha uma linha editorial crítica relativamente à Câmara de Ílhavo. O terceiro, assumindo-se como “Periódico Liberal Independente”, era igualmente crítico relativamente à autarquia e com o mesmo alinhamento político do anterior.
Quanto aos conteúdos tratados, está claro que todos se focavam nos temas sociais e políticos que ocorriam no concelho e na região, mas também faziam a sua incursão em assuntos de âmbito nacional e internacional com recurso, normalmente, a transcrições de artigos de jornais nacionais.
Excertos de notícias locais:
“(…) É impossível transitar a pé entre Ílhavo e Aveiro. Nas Ribas, abaixo da ladeira, o leito da estrada está transformado num enorme riacho de lodo. Nas estradas da Palhaça, e adiante de Vagos, a miséria é a mesma. É tudo assim. Todavia há eleições e os pacóvios vão votar por quem lhes faz ludibriosos tagatés (…)” – O Nautade 3.02.1926.
“Deve estar quase pronto o sino grande novo que a Junta da Freguesia de Ílhavo encomendou e que há de substituir, no campanário, da nossa igreja, o sino que a imprudência de quem destas coisas devia cuidar melhor, deixou partir”. – O Ilhavensede 7.03.1926.
“É sina nossa termos de pedir todos os anos, à Câmara Municipal, se digne mandar reparar a estrada que de Ílhavo conduz à Gafanha da Encarnação. Há, naquele ramal, atualmente, meia dúzia de covas onde as camionettes dificilmente passam (…). Aí fica a lembrança, sem quaisquer intuitos de criar embaraços a ninguém.” – O Ilhavensede 25.07.1926.
“Está definitivamente resolvida a vinda a Ílhavo do grupo cénico de Anadia, com a revista Champanhalândia em três atos e seis quadros. Os nossos visitantes chegarão a Ílhavo no dia 5, à tarde, e a récita terá lugar na noite do mesmo dia pelas 9 horas. A avaliar pelos bilhetes já marcados é de esperar uma casa à cunha. O produto líquido reverte a favor do Hospital de Ílhavo.” – Beira-Marde 28.08.1926.
“(…) No que que não falaram e deviam falar é na falta de água potável. A fonte da Chouza Velha está completamente seca. Quer a Câmara dignar-se atender-nos, mandando-a reparar? — Fazia obra meritória (…)” – O Nautade 13.08.1926.
“Há uma notícia a registar nesta coluna. Curiosa e oportuna. Um esplêndido ensinamento e uma edificante revelação na história política desta terra. Da Comissão de Censura de Ílhavo fazem parte os srs. Dr. José Santos, Denis Gomes, presidente da Comissão Administrativa e José Pereira Teles, diretor deO Ilhavense(!!!)”. – Beira-Marde 20.11.1926
De mortes:
“Faleceu no dia 12 do corrente a sr.ª Maria dos Anjos dos Santos, de 46 anos, casada, moradora no Vale de Ílhavo. Teve um enterro muito concorrido, assistindo a Música Nova”. –O Ilhavensede 23.05.1926.
“Em Verdemilho, na casa de seus pais, faleceu, após um doloroso sofrimento, um sofrimento pertinaz que não perdoa, a snr.ª Dona Idalinda da Rocha Martins. De há tempos que a Dona Idalinda tinha a sua fatal condenação.” –Beira-Marde 22.08.1926.
“Nesta vila faleceu o sr. Manuel d’Oliveira Razoilo – tio do nosso amigo, senhor Vítor da Graça César Ferreira, a quem damos pêsames bem como à restante família enlutada.” – O Nautade 13.08.1926.
Publicidade:
O Ilhavense, que saía com 4 páginas e oBeira-Marcom 8 páginas, apresentavam habitualmente uma página completa só de anúncios, embora houvesse outros dispersos. Eram anúncios que se repetiam em todos os números. O Nauta, que saía quase sempre só com duas páginas, apresentava pouca publicidade.
Com anúncio nos três jornais só detetámos o de “Manuel Marta – Agente de passagens e de passaportes” e, nos dois primeiros, o da Funilaria Ilhavense e o de A Mobiladora Ilhavense. Os anúncios do Tribunal eram publicados nos vários jornais e algumas profissões liberais (médicos e advogados) também publicavam em mais do que um jornal.
Tipografias onde eram impressos os jornais:
O Ilhavense: Casa Minerva – Ílhavo.
Beira-Mar: Tipografia Beira-Mar, na Rua João de Deus – Ílhavo.
O Nauta: Tipografia Social, na Rua de Camões – Ílhavo.
Preço da assinatura anual para Portugal:
O Ilhavense – 12$00
Beira-Mar – 12$00
O Nauta – 15$00
CONCLUSÃO
O que precede – uma breve amostra das inúmeras abordagens que se poderiam fazer, mas que não constitui o cerne da minha investigação – visa abrir a porta para o romance que estou a escrever e cuja personagem principal foi inspirada numa personalidade que, entre os anos 20 e os anos 70 do século passado, teve uma forte intervenção política em terras ilhavenses.
Brevemente daremos mais pormenores.
Acácio Pinto | TAMBÉM PODE LER AQUI